Duas baianas têm o mesmo nome e CPF e enfrentam bloqueios de benefícios e problemas para votar

Duas trabalhadoras rurais de 67 anos foram registradas com o mesmo nome e CPF em Santo Antônio de Jesus; erro cadastral se arrasta há uma década e já afetou aposentadoria, benefícios sociais, contas bancárias e acesso ao voto.

Por Gaby Santana 

Duas trabalhadoras rurais da Bahia vivem há cerca de dez anos as consequências de um erro em registros civis que fez com que elas passassem a compartilhar o mesmo nome e o mesmo número de CPF. O caso começou em um cartório de Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, e chegou à Justiça, mas os efeitos da duplicidade ainda atingem a vida das duas mulheres.

As duas se chamam Marinalva de Souza Barreto e foram registradas como nascidas em 21 de junho de 1959. Uma mora na zona rural de Cachoeira, enquanto a outra vive na zona rural de Ipecaetá, na região de Feira de Santana.

O problema só foi percebido muitos anos depois, quando as duas começaram a utilizar serviços públicos e financeiros vinculados ao mesmo CPF.

COMO O ERRO ACONTECEU?

Segundo o relato apresentado no caso, o problema teria começado quando Marinalva de Ipecaetá foi registrada ainda criança. Ela era órfã e, aos cinco anos, foi levada ao cartório de Santo Antônio de Jesus para obter o registro de nascimento.

A suspeita é de que, nesse momento, tenha ocorrido uma duplicidade no registro civil. O registro que já pertencia à Marinalva de Cachoeira teria sido utilizado também para a outra criança.

Com isso, documentos posteriores passaram a ser emitidos com informações que pertenciam a pessoas diferentes. Na prática, os sistemas passaram a identificar duas mulheres distintas como se fossem a mesma pessoa.

O problema é agravado porque o CPF funciona como um dos principais identificadores utilizados para cruzar informações em bancos, órgãos públicos, benefícios sociais e sistemas eleitorais. Quando duas pessoas aparecem associadas ao mesmo CPF, operações realizadas por uma podem acabar sendo interpretadas pelos sistemas como pertencentes à outra.

CONSEQUÊNCIAS NA APOSENTADORIA, BANCO E BENEFÍCIOS

Foi justamente isso que aconteceu com as duas mulheres.

Marinalva de Cachoeira afirma que tentou solicitar a aposentadoria, mas descobriu que, no sistema, ela já aparecia como aposentada. Além disso, teve o nome negativado por empréstimos que afirma não ter contratado e enfrentou problemas com contratos de energia.

A conta bancária também foi bloqueada por suspeita de fraude, impedindo o envio e o recebimento de Pix.

Já Marinalva de Ipecaetá relatou ter enfrentado o bloqueio do Bolsa Família por suspeita de irregularidade e dificuldades para movimentar sua conta bancária.

POR QUE ELAS TIVERAM PROBLEMAS PARA VOTAR?

A duplicidade também chegou ao sistema eleitoral.

Como o mesmo CPF estava relacionado às duas mulheres, uma situação registrada para uma delas podia ser associada à outra. Em uma das eleições, Marinalva de Cachoeira relatou que chegou ao local de votação e foi informada de que o cadastro já indicava que ela havia votado.

O problema é consequência direta da dificuldade de diferenciar, nos sistemas, duas eleitoras que aparecem vinculadas ao mesmo identificador.

Isso não significa que uma mulher tenha necessariamente votado no lugar da outra. O problema está na duplicidade cadastral, que pode fazer com que o sistema reconheça a identificação de uma pessoa como sendo a da outra.

CASO ESTÁ NA JUSTIÇA HÁ UMA DÉCADA

A disputa judicial começou há aproximadamente dez anos. Durante o processo, foi constatado que o registro de nascimento originalmente em disputa pertencia à Marinalva de Cachoeira, que havia sido registrada primeiro.

Marinalva de Ipecaetá recorreu, mas a decisão foi mantida.

O cartório, porém, demorou a cumprir a determinação para separar os registros. Somente em agosto de 2026, após novos contatos sobre o caso, as certidões de nascimento foram finalmente separadas.

Mesmo com a correção dos registros, os problemas não foram solucionados imediatamente. A Receita Federal informou que acatou a decisão judicial, mas as duas ainda enfrentavam dificuldades para ter acesso às respectivas aposentadorias.

Fonte: G1 Bahia/TV Bahia

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