Por Lucas Alves
Uma mineradora australiana pretende ampliar a exploração de terras raras no Vale do Jiquiriçá, no interior da Bahia. O empreendimento, chamado Monte Alto, é liderado pela empresa Brazilian Rare Earths (BRE), por meio da subsidiária Borborema Recursos Minerais, e envolve uma área com potencial mineral, comunidades rurais e importantes reservas ambientais.
De acordo com reportagem publicada pelo Intercept Brasil, em 22 de setembro, o projeto tem provocado preocupação entre moradores da região, principalmente pelos possíveis impactos ambientais, pela pressão sobre famílias que vivem da agricultura e pelo interesse da empresa também na exploração de urânio.
A iniciativa conta com investimentos ligados à bilionária australiana Gina Rinehart, conhecida por apoiar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A empresa apresenta o empreendimento como uma oportunidade de desenvolvimento econômico, mas o avanço das pesquisas e das negociações de terras tem gerado questionamentos entre moradores e pesquisadores.
Vale do Jiquiriçá concentra parte significativa das pesquisas minerais
A Bahia ocupa posição de destaque na corrida pela exploração de terras raras no Brasil. Segundo levantamento do Intercept Brasil, com base em dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), o estado reúne 1.204 processos minerários ativos relacionados a essas substâncias, o equivalente a 31% dos registros do país.
Mais da metade desses processos está localizada no Vale do Jiquiriçá, território onde vivem aproximadamente 20 mil famílias ligadas à agricultura familiar, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Rural da Bahia.
A Brazilian Rare Earths possui 230 requerimentos relacionados à mineração de terras raras no estado, correspondentes a cerca de 19% dos processos ativos identificados no levantamento.
O projeto Monte Alto é um dos empreendimentos mais avançados da companhia na Bahia. A empresa afirma que a região apresenta concentrações elevadas de minerais utilizados na fabricação de equipamentos eletrônicos, veículos elétricos, tecnologias de inteligência artificial e equipamentos militares.
Entre os elementos de interesse estão neodímio, praseodímio, ítrio e térbio, considerados estratégicos para diferentes setores industriais.
Projeto alcança áreas de preservação ambiental
Um dos principais pontos de preocupação envolve a localização das áreas reivindicadas para a exploração mineral.
Segundo a reportagem do Intercept, parte da área do projeto Monte Alto está sobreposta à Área de Proteção Ambiental (APA) Caminhos Ecológicos da Boa Esperança, que abriga nascentes, cursos d’água, cachoeiras e remanescentes de Mata Atlântica.
A região inclui áreas próximas à Cachoeira do Guigó, considerada um patrimônio natural do Vale do Jiquiriçá.
O levantamento também identificou processos minerários da empresa sobrepostos à Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães, unidade de conservação de proteção integral onde a mineração é proibida pela legislação ambiental.
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apontou, em inspeção realizada em maio de 2025, que a cava prevista para o empreendimento poderá atingir nascentes, cursos d’água, áreas de Mata Atlântica e regiões próximas a sete comunidades.
Embora a legislação permita atividades minerais em determinadas áreas de proteção ambiental, mediante as autorizações necessárias, a exploração em unidades de proteção integral enfrenta restrições legais específicas.
A Agência Nacional de Mineração informou que eventuais pedidos de lavra deverão passar pela análise das interferências com áreas onde a atividade não é permitida. A extração comercial também depende do licenciamento ambiental.
Famílias relatam pressão para vender propriedades
Além das preocupações ambientais, o projeto tem provocado mudanças no cotidiano da comunidade rural de Monte Alto.
Segundo moradores ouvidos pelo Intercept Brasil, a circulação de caminhões, máquinas e equipes de sondagem, além do alargamento de estradas, já interfere na rotina das famílias.
A comunidade é formada principalmente por agricultores familiares, muitos deles dedicados ao cultivo do cacau e de outras culturas.
Moradores afirmaram à reportagem que representantes envolvidos nas negociações têm procurado proprietários para comprar terrenos. Algumas famílias relatam medo, insegurança e pressão durante as tratativas.
De acordo com os relatos, das cerca de 120 famílias que vivem na comunidade, 17 já teriam vendido suas propriedades à empresa. A mineradora não confirmou esse número ao veículo.
Em abril de 2026, moradores entregaram um manifesto à Borborema, com assinaturas de mais de 100 famílias, questionando a condução das negociações e cobrando transparência nas informações sobre o empreendimento.
A empresa afirmou ao Intercept que não admite pressão ou constrangimento por parte de seus funcionários, prestadores de serviços ou representantes. Também declarou que as negociações são individualizadas e baseadas em avaliações técnicas.
Interesse em urânio amplia preocupação
Outro ponto abordado na reportagem é a possível recuperação de urânio associado aos minerais encontrados em Monte Alto.
Segundo o Intercept, moradores afirmaram que não receberam informações claras sobre a presença do material radioativo nas reuniões realizadas pela empresa.
A Borborema declarou que o projeto não prevê a produção de concentrado de urânio, enriquecimento ou processamento químico do material no local da mina.
A companhia informou que uma eventual recuperação de urânio dependeria de uma futura estrutura industrial em Camaçari, além de estudos, licenciamento e autorizações da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN).
A ANSN informou ao Intercept que o processo relacionado ao empreendimento está em fase inicial de avaliação regulatória e que não havia emitido autorização para produção de concentrado de urânio em Monte Alto.
A possibilidade de aproveitamento desse material amplia o debate sobre os cuidados necessários para a atividade e os impactos que poderão atingir as comunidades e os recursos naturais da região.
• Minério extraído na Bahia poderá ser beneficiado em Camaçari
O planejamento da Brazilian Rare Earths prevê que o minério extraído no Vale do Jiquiriçá passe por uma etapa inicial de beneficiamento na própria região.
Posteriormente, o material deverá ser transportado por aproximadamente 260 quilômetros até o complexo industrial de Camaçari, onde a companhia pretende desenvolver uma refinaria de terras raras em escala industrial.
A empresa também mantém planos de produzir materiais destinados ao mercado internacional, com possíveis compradores na Europa, no Japão e nos Estados Unidos.
As terras raras ganharam importância estratégica mundial devido à utilização na fabricação de equipamentos de alta tecnologia e à disputa internacional pelo fornecimento desses minerais, atualmente dominado pela China em diferentes etapas da cadeia produtiva.
O avanço do projeto Monte Alto, entretanto, depende de novas etapas de licenciamento e de autorizações dos órgãos competentes.
Enquanto a mineradora apresenta o empreendimento como uma oportunidade para o setor mineral brasileiro, moradores e pesquisadores apontam a necessidade de transparência, proteção ambiental e garantia dos direitos das famílias que vivem no Vale do Jiquiriçá.
Fonte: Intercept Brasil – reportagem original.

