Por Gaby Santana
Seis anos após perder o filho Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, Mirtes Renata Santana de Souza concluiu a graduação em Direito. Na noite do último sábado (29), durante a cerimônia de formatura realizada no Grande Recife, ela entrou no salão segurando uma fotografia do menino.
Miguel morreu em 2 de junho de 2020, após cair do nono andar de um edifício de luxo no Centro do Recife. Na ocasião, Mirtes trabalhava como empregada doméstica na residência de Sarí Côrte Real e havia saído para passear com o cachorro da família. O menino estava sob os cuidados da então patroa da mãe.

Segundo relatos sobre o caso, Miguel entrou sozinho no elevador, saiu no nono andar e caiu de uma altura de aproximadamente 35 metros. A morte da criança provocou repercussão nacional e levantou debates sobre racismo, desigualdade social e as condições de trabalho das empregadas domésticas no Brasil.
Durante a formatura, Mirtes foi acompanhada pela mãe, Marta, pela irmã, Fabiana, e por duas amigas. A entrada ocorreu ao som de “Maria, Maria”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, enquanto imagens de Miguel eram exibidas em um telão no local.
TCC recebeu nota máxima
A trajetória acadêmica de Mirtes também esteve diretamente ligada às questões sociais que atravessaram sua própria história. Em 2025, ela recebeu nota 10 pelo trabalho de conclusão de curso, intitulado “Trabalho Escravo Contemporâneo e Direitos Fundamentais: uma análise da proteção constitucional com foco nas trabalhadoras domésticas”.
A pesquisa abordou as condições de trabalho e os direitos das empregadas domésticas, categoria da qual Mirtes fez parte antes de ingressar na graduação em Direito.
O trabalho ganhou destaque justamente pela relação entre a pesquisa acadêmica e a trajetória pessoal da autora. Em vez de tratar o tema apenas de forma teórica, Mirtes estudou questões relacionadas a uma realidade que conheceu profissionalmente.
Justiça condenou Sarí Côrte Real
A situação judicial do caso também teve uma atualização importante em 2026. Sarí Côrte Real foi condenada por abandono de incapaz com resultado morte e recebeu pena de sete anos de prisão, em regime inicialmente fechado.
Em maio deste ano, a Seção Criminal do Tribunal de Justiça de Pernambuco rejeitou um recurso da defesa e manteve a condenação por seis votos a cinco. A defesa buscava reduzir a pena para seis anos e alterar o regime inicial de cumprimento.
Apesar da manutenção da condenação em segunda instância, Sarí permanece em liberdade enquanto recorre da decisão. Portanto, o caso ainda não chegou a uma conclusão definitiva em todas as instâncias.
Em julho, a Justiça Federal também negou um pedido de Sarí para obter financiamento integral pelo Fies para cursar Medicina em uma instituição particular. A decisão ainda admite recurso.
Uma história que ultrapassou o caso criminal
A trajetória de Mirtes depois da morte de Miguel passou a ser marcada também pela formação jurídica e pela atuação pública em torno da busca por Justiça. A formatura, portanto, ocorre em um momento no qual o processo criminal possui uma condenação mantida em segunda instância, mas ainda não há encerramento definitivo da disputa judicial.
Ao carregar a fotografia do filho durante a cerimônia, Mirtes transformou a homenagem a Miguel em parte de um momento que simboliza uma nova etapa de sua vida: a conclusão do curso de Direito, área que passou a integrar sua própria trajetória de luta por direitos e justiça.


