Seis em cada dez brasileiros detidos pela imigração dos EUA são deportados, aponta levantamento

Seis em cada dez brasileiros detidos pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) acabam deportados, segundo dados organizados pelo Observatório das Deportações, projeto vinculado à Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), em Minas Gerais. O levantamento também aponta que quase 60% dos brasileiros detidos não tinham sido formalmente acusados de nenhum crime.

Os dados foram obtidos pelo Deportation Data Project por meio de um pedido de acesso à informação ao governo americano. A base reúne registros de 2023 e 2024, durante o governo Joe Biden, e de 2025 e 2026, nos primeiros anos do segundo mandato de Donald Trump. Os números de 2026 abrangem o período até agosto e ainda são parciais.

Até agosto deste ano, o ICE havia registrado 3.650 detenções de brasileiros, mais que o dobro do total observado nos dois últimos anos da administração democrata. Julho concentrou o maior número de ocorrências, com 709 prisões.

As detenções estão concentradas na Costa Leste dos Estados Unidos, onde vive uma parcela expressiva da comunidade brasileira. Massachusetts, Flórida, Nova Jersey, Pensilvânia e Nova York aparecem entre os estados com mais registros. A idade média dos detidos é de 34 anos.

Maioria não tinha acusação formal de crime

De acordo com o levantamento, quase 60% dos brasileiros detidos nos últimos dois anos não haviam sido formalmente acusados de um crime. Nesses casos, a detenção costuma estar relacionada à situação migratória, como a permanência no país sem autorização válida.

A permanência irregular nos Estados Unidos é, em regra, uma infração civil, e não um crime penal. Outros 30% dos brasileiros detidos respondiam a acusações criminais, mas ainda não tinham recebido sentença judicial. Os 10% restantes já haviam sido considerados culpados.

A base de dados não detalha quais crimes são atribuídos aos brasileiros. Por isso, não é possível identificar, a partir do levantamento, quais delitos aparecem com maior frequência entre os casos registrados.

Processos migratórios estão mais rápidos

O tempo médio de espera por uma decisão judicial ou uma ordem de deportação também diminuiu. Em 2026, o prazo médio registrado foi de 37 dias, ante 161 dias em 2024, último ano completo do governo Biden.

Durante a tramitação, os imigrantes podem recorrer à Justiça e, conforme as circunstâncias do caso, solicitar habeas corpus para contestar a legalidade da detenção ou buscar responder ao processo em liberdade. Também existe a possibilidade de retorno voluntário ao país de origem.

Neste ano, aproximadamente 30% dos brasileiros detidos ficaram em liberdade condicional. As condições podem incluir monitoramento por tornozeleira eletrônica e apresentações periódicas às autoridades enquanto aguardam uma decisão.

Crianças brasileiras também aparecem nos registros

O levantamento contabilizou 569 crianças brasileiras detidas pelo ICE em 2025 e até agosto de 2026. Nos dois últimos anos da administração Biden, foram registrados 625 menores de idade.

Em muitos casos, as crianças são levadas junto com os pais. Segundo os relatos reunidos pela reportagem original, elas costumam ser liberadas após algumas horas ou dias, sem permanecer em unidades de detenção de longa duração do ICE.

O perfil geral dos brasileiros detidos é predominantemente masculino. Nos últimos quatro anos, cerca de 75% eram homens. Durante o governo Trump, essa proporção chegou a aproximadamente 80%.

Para o antropólogo Julio D’Angelo Davies, coordenador do projeto responsável pela organização dos dados, o cenário indica uma concentração das ações migratórias sobre homens adultos, muitos deles responsáveis pelo sustento das famílias.

Famílias procuram documentos e retorno voluntário

A deportação de um integrante responsável pela renda familiar pode levar outros parentes a deixar voluntariamente os Estados Unidos para se reunir com ele no Brasil. Essas saídas, conhecidas como autodeportações, não entram na base do levantamento, o que dificulta estimar o impacto total das políticas migratórias sobre as famílias brasileiras.

Outro reflexo apontado pela reportagem é o aumento da procura por documentos brasileiros para crianças nascidas nos Estados Unidos. Conforme dados divulgados pela Folha de S.Paulo, foram solicitadas mais de 21 mil certidões de nascimento em 2025, contra 5,6 mil em 2021.

Autoridades consulares relacionam o crescimento à preocupação de famílias que temem precisar deixar o país e buscam regularizar a documentação dos filhos, incluindo passaportes brasileiros.

No Consulado-Geral do Brasil em Boston, são registrados, em média, dois novos casos por dia relacionados a brasileiros detidos, pessoas em liberdade condicional com tornozeleira eletrônica ou mulheres acompanhadas de crianças que precisam de assistência.

Dados não incluem todas as detenções na fronteira

O levantamento considera apenas as detenções realizadas pelo ICE. Portanto, não representa necessariamente o total de brasileiros presos por autoridades migratórias americanas, já que a Patrulha de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) também realiza apreensões, inclusive na fronteira com o México.

Entre janeiro e maio de 2026, a CBP deteve 176 brasileiros nessa região. No mesmo período de 2024, foram mais de 10,7 mil.

A queda ocorre em meio ao endurecimento do controle fronteiriço durante o governo Trump. Em 2024, parte dos brasileiros encontrados na fronteira era liberada por meio do chamado parole, uma autorização temporária de entrada e permanência nos Estados Unidos. O cenário atual é marcado por restrições mais severas e menor volume de liberações desse tipo.

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