Com a aprovação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), começou, em 1º de agosto, a venda da gasolina E32, combustível que leva 32% de etanol anidro em sua mistura, acima dos 30% anteriores. Ou seja, a cada litro de gasolina, há 320 ml de etanol.
A medida também impactou o preço do combustível, inclusive na Bahia. Após entrar em vigor o subsídio federal de R$ 0,44, o preço da gasolina da Refinaria de Mataripe revendida às distribuidoras passou de R$ 3,93 para R$ 3,49. Na prática, a mudança não impacta apenas o bolso do consumidor, mas também aspectos mecânicos e socioambientais, de acordo com o doutor em energia e professor da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Ednildo Torres.
Segundo o pesquisador e especialista, o aumento do teor de etanol traz vantagens e desvantagens ao consumidor, apesar da redução no custo do combustível. Entre os benefícios está o aumento da octanagem, que amplia a resistência do combustível à detonação precoce e, consequentemente, reduz o risco de danos ao motor.
Do lado das desvantagens, Ednildo explica que como a quantidade de energia do etanol é menor que liberada pela gasolina, são necessárias maiores quantidades de álcool para se obter o mesmo resultado. Dessa forma: “reduzido o poder calorífico (da mistura, com o aumento de etanol) vai tender a aumentar o consumo de combustível”. Segundo o professor, a tendência é que o consumo aumente entre 1% e 2%.
Quando optar pelo etanol
Ainda assim, o cálculo feito pelo consumidor para saber se é mais viável abastecer com gasolina ou etanol se mantém. Basta dividir o preço do etanol pelo da gasolina e, se o resultado ficar abaixo de 70%, escolher o álcool. Com o aumento do combustível vegetal na mistura, mesmo que o resultado esteja próximo dos 75%, ainda pode compensar mais abastecer com etanol.
Por exemplo, utilizando os valores médios aferidos pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) em Salvador, entre os dias 2 e 8 de agosto – R$ 4,63 para o etanol e R$ 6,73 para a gasolina -, o resultado é de 69%.
Em outro caso prático, um veículo com tanque de 55 litros gastaria, naquele período, R$ 254,65 para encher com etanol, contra R$ 370,15 se fosse abastecido com gasolina, uma economia de mais de R$ 115. Com essa diferença, seria possível ainda colocar quase 25 litros de etanol.
E esse comportamento vem crescendo nos últimos meses. Dados do Observatório da Cana e Bioenergia da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) apontam que, em junho deste ano, foi registrado um consumo de 69.439.86 m³ de etanol na Bahia, o maior valor do ano.
Crenças populares sobre o etanol
O professor Ednildo também aproveitou para desmistificar algumas crenças populares a respeito do etanol. De fato, existe uma dificuldade maior para ligar o carro abastecido com etanol em temperaturas abaixo de 20 °C, devido ao ponto de evaporação, acima de 60%. Nos carros flex, porém, basta ligar com o tanque na gasolina e, pouco depois, em menos de um minuto, mudar novamente e seguir a vida.
“Vamos dizer que há um pouco de preguiça em querer virar a chave para botar a gasolina, porque o apressadinho que quer ligar o carro e sair. E outra coisa fundamental, nos carros novos, você tem que ligar a chave e esperar pelo menos 15 segundos para ele poder pré-aquecer o bico de injeção, para que o combustível já vaporize ao entrar”, ressaltou.
Também está enganado quem acha que o etanol, em dias mais quentes, evapora mais rápido e pode dar uma falsa sensação de ‘tanque cheio’. Isso porque a gasolina tem “temperatura de volatização” mais baixa, ou seja, a gasolina consome mais nessas situações.
O pesquisador apontou ainda uma importante questão socioambiental ligada ao biocombustível. Produzido a partir da cana-de-açúcar, o etanol contribui para a geração de empregos, o uso de terras pouco utilizadas e uma menor liberação de GEE (gases do efeito estufa) ao longo do ciclo:
“Se você coloca lá 1/3 da gasolina, que é praticamente 1/3 de etanol, significa que você tá reduzindo o GEE. Mas como? Você tá reduzindo porque o CO² que foi gerado vai ser capturado de novo pela planta (cana ou milho usadas na produção), e com isso fica um ciclo virtuoso”, frisa.
Fonte: Jornal Correio


