O PIX transformou a forma como os brasileiros movimentam dinheiro. Em apenas seis anos, o sistema se tornou o meio de pagamento mais usado no país, graças à rapidez e à praticidade das transferências. Mas justamente a velocidade que facilita a vida também virou uma oportunidade para criminosos.
Por trás de uma simples transferência existe uma cadeia formada pelo Banco Central, instituições financeiras e usuários. E, segundo especialistas, os golpes frequentemente exploram o ponto mais vulnerável dessa estrutura: o comportamento do próprio consumidor. “A segurança do PIX depende de uma cadeia inteira funcionando bem, e os golpistas exploram exatamente os elos mais fracos dessa cadeia, que são os consumidores”, alerta Antonio Gesteira, diretor executivo sênior de Riscos, Investigações e Tecnologia da FTI Consulting.
O Banco Central vem endurecendo as regras para dificultar golpes e aumentar as possibilidades de recuperação de valores desviados. Entre as medidas está o MED 2.0, versão aprimorada do Mecanismo Especial de Devolução, que passou a ser obrigatória em fevereiro de 2026, com a entrada em vigor da Resolução BCB nº 493.
Segundo Gesteira, uma das mudanças permite que, quando o dinheiro de um golpe é distribuído por diferentes contas para dificultar seu rastreamento, os valores possam ser bloqueados simultaneamente. As instituições financeiras também passaram a ter obrigações mais rigorosas para identificar comportamentos atípicos e verificar registros de fraude associados a CPFs e CNPJs, além de realizar bloqueio cautelar quando houver indícios de que a conta recebedora seja uma conta laranja.
Ainda assim, nenhuma tecnologia elimina completamente o risco. Pequenas atitudes do usuário podem fazer diferença na hora de evitar um golpe.
- 1. Conferir a chave, mas não o nome do destinatário
Um dos erros mais comuns é confirmar a chave PIX sem verificar quem realmente receberá o dinheiro. Criminosos podem cadastrar chaves com nomes semelhantes ou genéricos para tentar confundir a vítima. “A chave pode estar correta e o destinatário, errado. Sempre confirme nome e CPF antes de concluir a transação”, orienta Gesteira.
- 2. Fazer PIX usando Wi-Fi público
Redes abertas em locais como aeroportos, cafés e shoppings podem representar um risco adicional para operações financeiras. A recomendação é evitar movimentações bancárias em redes públicas e, sempre que possível, utilizar a rede móvel do próprio celular para fazer transferências.
- 3. Acreditar imediatamente em mensagens de um suposto familiar ou amigo
O chamado golpe do novo número se tornou uma estratégia conhecida: o criminoso afirma ser alguém próximo, diz que trocou de telefone e, pouco depois, pede dinheiro ou solicita que a vítima faça um PIX. O problema é que a abordagem explora justamente a confiança e a urgência. “Os golpes no PIX tornaram-se crimes sofisticados, usando de manipulação psicológica para enganar as vítimas. Desconfie se alguém disser que é um parente ou conhecido para pedir pagamento ou empréstimo”, afirma o especialista. Antes de transferir, vale confirmar a identidade por outro canal ou entrar em contato diretamente com a pessoa conhecida.
- 4. Manter limites de PIX altos por comodidade
Os aplicativos bancários permitem configurar limites diferentes para transferências durante o dia e à noite. Manter valores elevados simplesmente para evitar a necessidade de alterar o limite pode aumentar o prejuízo potencial em caso de golpe ou roubo do celular. A orientação é revisar os limites periodicamente e reduzi-los nos horários em que não costumam ser realizadas operações financeiras.
- 5. Entregar códigos recebidos por SMS
Esse golpe costuma começar com uma ligação ou mensagem de alguém que se apresenta como funcionário do banco. O suposto atendente afirma que precisa confirmar a identidade do cliente e solicita o código recebido por SMS. O código, porém, pode funcionar como uma credencial de acesso. “Nenhum atendente legítimo pedirá esse código. Procure sempre os canais oficiais do banco”, alerta Gesteira.
- 6. Fazer uma transferência porque alguém criou uma situação de emergência
Pressa é uma das principais ferramentas usadas pelos golpistas. Pode ser uma cobrança que supostamente vence em poucos minutos, um familiar que estaria precisando de dinheiro com urgência ou uma oferta que desapareceria rapidamente. A pressão reduz o tempo disponível para checarinformaçõese aumenta a possibilidade de uma decisão impulsiva. “Qualquer situação que exija uma transferência imediata e sem tempo para pensar deve ser tratada como sinal de alerta”, afirma o especialista. Antes de fazer o PIX, pare, confira os dados e confirme a história por outro meio.
- 7. Não denunciar depois de cair em um golpe
Esse é um erro menos visível, mas também importante. Algumas vítimas deixam de registrar boletim de ocorrência, comunicar o banco ou relatar o caso ao Banco Central por acreditarem que a denúncia não terá efeito. O registro, porém, é importante tanto para tentar recuperar o dinheiro quanto para alimentar os sistemas de monitoramento das instituições financeiras e do regulador. “O consumidor é parte dessa cadeia de segurança. Reportar o golpe protege não só você, mas os próximos alvos”, conclui Gesteira.
A velocidade que ajuda também pode ser usada contra você
A facilidade do PIX não deve significar transferência automática diante de qualquer pedido. Mesmo com mecanismos de segurança cada vez mais sofisticados, a conferência dos dados, a desconfiança diante da urgência e a comunicação imediata com o banco continuam sendo barreiras importantes contra golpes. A regra mais simples é também uma das mais eficientes: se alguém estiver pressionando você a fazer um PIX imediatamente, pare antes de pagar.
Fonte: Jornaal Correio


