O banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de colaboração premiada apresentada às autoridades, que o candidato ao governo da Bahia ACM Neto (União Brasil) e o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, teriam participado da captação de recursos para o Banco Master e poderiam receber comissões sobre os valores movimentados.
As informações constam da terceira proposta de delação apresentada por Vorcaro, segundo reportagem do colunista Cézar Feitoza, do UOL. O conteúdo, no entanto, não representa uma conclusão das autoridades sobre os fatos relatados. As propostas de colaboração de Vorcaro foram rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
O que Vorcaro relatou
Segundo o documento, ACM Neto e Rueda teriam atuado para aproximar o Banco Master de institutos de previdência do Rio de Janeiro, Amapá e Amazonas, além da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae).
Vorcaro afirmou que a movimentação teria contribuído para que o banco captasse cerca de R$ 2 bilhões. Como contrapartida, segundo o relato, teria sido estabelecido um percentual de 10% sobre os valores captados, o que representaria uma obrigação de aproximadamente R$ 200 milhões.
O banqueiro, porém, não informou quanto desse montante teria sido efetivamente pago aos dois políticos.
A proposta também descreve supostas formas de pagamento e menciona contratos de consultoria, empresas e escritórios ligados aos envolvidos. No caso de Rueda, Vorcaro afirmou que contratos com o escritório Rueda & Rueda Advogados poderiam somar aproximadamente R$ 3 milhões mensais.
Relação com o BRB
Outro trecho da proposta trata de uma reunião entre Vorcaro, Rueda e Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília (BRB), realizada na casa de Rueda, em Brasília, em junho de 2024.
De acordo com o relato, teria sido solicitado a Vorcaro que levantasse cerca de R$ 1 bilhão para auxiliar em um aumento de capital do BRB. O banqueiro afirmou ainda que o grupo ligado ao Master teria aportado aproximadamente R$ 750 milhões no banco.
No mesmo período, segundo a proposta, o BRB teria adquirido cerca de R$ 6 bilhões em carteiras do Banco Master.
Vorcaro afirmou que posteriormente teria sido discutida uma comissão de 10% sobre os valores desembolsados pelo BRB na compra de ativos do Master. Segundo ele, os recursos seriam divididos entre Rueda, Paulo Henrique Costa e ACM Neto.
Recursos de fundos de previdência
Dados mencionados na reportagem apontam que quatro instituições teriam aplicado aproximadamente R$ 3,62 bilhões no Banco Master.
Entre os valores citados estão cerca de R$ 2,97 bilhões do Rioprevidência, R$ 400 milhões da Amprev, do Amapá, R$ 200 milhões da Cedae e R$ 50 milhões da Amazonprev.
O total supera os R$ 2 bilhões mencionados por Vorcaro em sua proposta. O documento, segundo a reportagem, não esclarece a diferença entre os valores.
Investigações
A proposta também menciona investigações envolvendo investimentos de fundos de previdência no Banco Master.
O ex-presidente do Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, foi preso pela Polícia Federal em fevereiro deste ano. No Amapá, o aporte de R$ 400 milhões teria sido aprovado por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha de Davi Alcolumbre (União Brasil).
No Amazonas, um aporte de R$ 50 milhões teria sido autorizado por um dirigente que havia trabalhado como contador na campanha de reeleição do governador Wilson Lima (União Brasil).
Ainda segundo a reportagem, dados bancários e fiscais entregues à CPI do Crime Organizado apontam repasses de R$ 6,4 milhões do Banco Master para escritórios ligados a Rueda entre 2022 e 2025. Uma empresa de consultoria ligada a ACM Neto teria recebido R$ 5,4 milhões no período de 2023 a 2025.
Os valores, contudo, não comprovam, por si só, que tenham relação com as acusações descritas na proposta de delação.
ACM Neto e Rueda negam irregularidades
Procurado pela reportagem, Antônio Rueda afirmou ter dificuldade para se manifestar sobre um documento ao qual não teve acesso e negou qualquer irregularidade.
ACM Neto também negou as acusações. Em declaração divulgada pela reportagem, classificou as afirmações como “absurdas, completamente fantasiosas e mentirosas”.
As propostas de delação apresentadas por Daniel Vorcaro foram rejeitadas pela Polícia Federal e pela PGR. O banqueiro tenta retomar as negociações para uma eventual colaboração premiada.

