Do sonho de enriquecer ao endividamento: como as bets podem transformar diversão em dependência

MP assinada por Lula proíbe exploração e publicidade das bets no Brasil; decisão provocou reação de influenciadores e reacendeu o debate sobre saúde, publicidade e responsabilidade

Por Gaby santana 

 

A promessa de ganhar dinheiro rapidamente ajudou a popularizar as apostas on-line no Brasil. Nas redes sociais, influenciadores passaram a divulgar plataformas com vídeos que exibiam ganhos, viagens, carros e uma rotina de luxo, muitas vezes acompanhados de chamadas como “entre no link” ou “está pagando”.

Para algumas pessoas, porém, a aposta deixou de ser entretenimento e passou a provocar perdas financeiras e problemas familiares.

Um dos casos relatados pela Agência Brasil é o de Kaio, de 42 anos, que, segundo seu relato, perdeu o carro, a casa e o emprego após anos enfrentando problemas com jogos. Ele procurou atendimento em um CAPS e passou a participar de grupos terapêuticos e consultas médicas.

O Ministério da Saúde reconhece o Transtorno do Jogo como um transtorno de comportamento aditivo. Entre os sinais estão dificuldade para parar de apostar, aumento dos gastos, comprometimento da renda, alterações no humor e problemas nas relações familiares. As plataformas on-line, disponíveis 24 horas, utilizam recursos como notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas variáveis, que podem estimular a repetição das apostas.

Proibição das bets

O debate ganhou um novo capítulo em 25 de setembro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a Medida Provisória nº 1.394/2026.

A MP proíbe no território nacional a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos on-line. A medida também alcança autorizações estaduais e distritais e entrou em vigor na data da publicação.

A MP ainda está em tramitação no Congresso Nacional, portanto poderá ser analisada, modificada ou rejeitada pelos parlamentares.

Influenciadores reagem

A decisão provocou manifestações nas redes sociais. Davi Brito, Jon Vlogs e Jojo Todynho estiveram entre os influenciadores que se posicionaram contra a proibição e participaram da mobilização “Nós Apostamos no Brasil”, que defende a manutenção de um mercado regulamentado.

Entre os argumentos apresentados está o temor de que a proibição leve apostadores para plataformas clandestinas, fora do alcance da fiscalização.

Davi Brito questionou a eficácia da proibição e defendeu mecanismos de controle e tratamento para quem desenvolve problemas com o jogo. Jon Vlogs também criticou a medida. Jojo Todynho participou da mobilização em defesa do mercado regulado.

Do outro lado, Felipe Neto se manifestou favoravelmente à proibição e afirmou ter se arrependido de já ter feito publicidade para plataformas de apostas.

Entre a publicidade e a saúde

A discussão envolve também quem apresenta essas plataformas ao público. A publicidade pode aproximar o usuário de um serviço que está disponível no celular a qualquer hora, enquanto expressões associadas a ganhos rápidos podem criar a percepção de que apostar é uma forma simples de ganhar dinheiro.

O próprio Ministério da Saúde alerta para a influência das redes sociais e recomenda atenção à exposição a conteúdos que romantizam as apostas.

O governo também ampliou o atendimento. Desde agosto, o Meu SUS Digital oferece teleatendimento em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares, com possibilidade de encaminhamento para a Rede de Atenção Psicossocial.

A MP de Lula agora coloca em discussão o futuro desse mercado no país. Enquanto o Congresso analisa a medida e influenciadores divergem sobre a proibição, o Ministério da Saúde trata os problemas relacionados às apostas como uma questão de saúde pública.

Para quem já perdeu o controle sobre o jogo, a orientação oficial é procurar ajuda. O SUS oferece atendimento pelas Unidades Básicas de Saúde e pelos CAPS, além do atendimento remoto pelo Meu SUS Digital.

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