Por Ana Sampaio
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicado na revista científica Ciência & Saúde Coletiva traz à tona evidências contundentes sobre a desigualdade racial na violência letal no Brasil. Utilizando uma metodologia estatística robusta — a escala de propensão — os pesquisadores compararam grupos de pessoas com características semelhantes de idade, sexo, escolaridade e local de moradia, isolando a cor da pele como um fator de risco independente para morrer vítima de homicídio.
Ao cruzar dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde com informações populacionais detalhadas do Censo 2022 do IBGE, a análise apontou que, mesmo em condições sociais equivalentes, pessoas negras apresentaram probabilidade estatística significativamente maior de morrer por homicídio. Em determinados cenários controlados pelo escore de propensão, a chance de homicídio para indivíduos negros chegou a ser até 2,29 vezes maior do que para brancos.
Os resultados revelam uma face estrutural do racismo e da violência no Brasil que vai além de desigualdades socioeconômicas. Segundo a pesquisa, a cor da pele funciona como um determinante independente para a exposição à violência letal, um reflexo de profundas desigualdades históricas e sociais que permeiam a sociedade brasileira.
Especialistas e movimentos sociais apontam que esses indicadores estão alinhados com outras pesquisas nacionais, como o Atlas da Violência, que há anos demonstram que pessoas negras representam a grande maioria das vítimas de homicídios no país e enfrentam riscos muito superiores aos da população não negra. Em 2023, por exemplo, estimativas oficiais indicam que o risco de uma pessoa negra ser vítima de homicídio era cerca de 2,7 vezes maior do que o de uma pessoa não negra.
A persistente disparidade tem implicações diretas para o debate sobre políticas públicas. Os pesquisadores ressaltam que os resultados reforçam a existência de desigualdades raciais estruturais, que não podem ser explicadas apenas por condições socioeconômicas ou geográficas. Para enfrentá-las, defendem políticas públicas mais eficazes e equitativas, que abordem tanto a violência quanto as raízes do racismo institucional no país.
O estudo contribui para aprofundar a compreensão sobre como o racismo influencia desproporcionalmente a vida de milhões de brasileiros, sinalizando a necessidade urgente de ações que garantam segurança e igualdade de direitos para toda a população.
