Por Gaby Santana
Produtores de cacau do Vale do Jiquiriçá enfrentaram, ao longo da última semana, uma queda considerada abrupta no preço da arroba da amêndoa, gerando preocupação no campo. Nos armazéns de municípios como Mutuípe, Laje e áreas próximas, o valor do cacau iniciou a semana em torno de R$ 300 por arroba e encerrou a sexta-feira cotado a R$ 230, a maior baixa registrada até agora em 2026.
A desvalorização ocorreu de forma acelerada. Na segunda-feira, a arroba era negociada a R$ 300. Na quarta-feira, o preço caiu para R$ 280 e, ainda no mesmo dia, recuou novamente para R$ 250. Já na sexta-feira, o mercado fechou com nova queda, atingindo R$ 230. A rapidez do movimento pegou os produtores de surpresa, especialmente após um período de preços historicamente elevados.
Além do impacto imediato na renda, a queda preocupa principalmente os pequenos produtores, que respondem por cerca de 90% da produção de cacau no Brasil. Na região, a maior parte da cadeia produtiva é formada por agricultores familiares, mais expostos à volatilidade do mercado por terem menor capacidade de estocagem e pouco acesso a mecanismos de proteção de preços, como contratos futuros.
O cenário local reflete uma tendência do mercado internacional. Mesmo após uma queda expressiva na sessão anterior, o cacau voltou a recuar na bolsa de Nova York. Na quarta-feira (21), os contratos com vencimento em março fecharam em baixa de 4,30%, cotados a US$ 4.448 por tonelada.
Segundo analistas, a pressão sobre os preços está ligada à recuperação da oferta global. De acordo com Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da StoneX, não há registros de perdas relevantes de produtividade por fatores climáticos. Pelo contrário, a colheita na África Ocidental, principal região produtora do mundo, tem apresentado resultados positivos.
Na Costa do Marfim, maior produtor global de cacau, há relatos de dificuldade para escoar a produção diante da oferta abundante. Países como o Equador também registraram aumento na produção, contribuindo para um cenário de superávit global estimado em cerca de 150 mil toneladas, após o pico histórico de preços observado em 2024.
No Brasil, a queda acumulada do cacau em janeiro de 2026 chega a aproximadamente 24%. Outro fator que pesa sobre os preços é a retração da moagem, tanto no mercado interno quanto no exterior, reflexo do desaquecimento da indústria após os altos custos enfrentados nos últimos anos.
Os contratos futuros acompanham essa tendência. Depois de atingir valores próximos de US$ 12 mil por tonelada em 2024, o cacau passou a ser negociado em torno de US$ 4,6 mil no início de 2026.
No Vale do Jiquiriçá, o sentimento entre os produtores é de apreensão. A oscilação acentuada em poucos dias reforça a vulnerabilidade dos pequenos agricultores às variações do mercado internacional e reacende o debate sobre a necessidade de políticas de apoio e mecanismos de proteção para quem está na base da produção do cacau no país.
