Após perder a disputa pela Presidência da República para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deverá ficar sem mandato eletivo a partir de fevereiro de 2027, quando termina seu período no Senado. Será a primeira vez desde o início de sua trajetória política, em 2003, que o senador ficará sem ocupar um cargo público.
Depois do resultado do segundo turno, realizado no domingo (25), Flávio classificou a eleição como uma “sacanagem”, afirmou ser “impossível” reconhecer a derrota e disse que pretende buscar a anulação do pleito. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), porém, confirmou a vitória de Lula, que terminou a apuração com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do candidato do PL.
Flávio recebeu cerca de 59,8 milhões de votos, enquanto Lula obteve aproximadamente 64,3 milhões, uma diferença superior a 4,4 milhões de votos.
Trajetória política começou em 2002
Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio entrou na vida pública após ser eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro em 2002, aos 21 anos. Ele tomou posse no ano seguinte e foi reeleito para o cargo em 2006, 2010 e 2014.
Em 2016, disputou a Prefeitura do Rio de Janeiro, mas não venceu. Dois anos depois, foi eleito senador pelo então Partido Social Liberal (PSL), cargo que ocupa atualmente.
O mandato no Senado termina em 31 de janeiro de 2027. Até lá, Flávio permanece no exercício da função parlamentar, antes de deixar o Congresso Nacional.
Foro privilegiado pode permanecer em determinados casos
Com o fim do mandato, Flávio deixará de ter foro especial automaticamente associado ao cargo de senador. Isso, no entanto, não significa que todas as investigações contra ele serão transferidas para a primeira instância.
Em março de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a prerrogativa de foro pode continuar mesmo depois que uma autoridade deixa o cargo, quando os crimes investigados tiverem sido cometidos durante o exercício da função e em razão dela. A competência para cada caso depende das circunstâncias e do entendimento aplicado pelo tribunal.
A regra estabelece quais órgãos do Judiciário podem julgar determinadas autoridades públicas. Portanto, a saída do Senado não encerra automaticamente investigações ou processos em andamento. <Cite refs={[“turn876162search0″,”turn876162search1”]}/>
Investigação sobre o filme Dark Horse
Entre os casos que envolvem o senador está a investigação sobre o financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A Polícia Federal apura negociações entre Flávio e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, para obter recursos destinados à produção.
Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil com base em documentos da investigação, Flávio teria solicitado cerca de R$ 131 milhões para o projeto, dos quais aproximadamente R$ 60 milhões teriam sido pagos. A apuração busca esclarecer a origem dos recursos e as circunstâncias dos repasses. Flávio nega irregularidades e afirma que o financiamento era privado.
Mensagens atribuídas ao senador e divulgadas no contexto da investigação mostram cobranças sobre pagamentos. Em um dos áudios citados na reportagem original, Flávio se dirige a Vorcaro e afirma que se sentia constrangido em cobrar os valores, apesar de o empresário ter autorizado as cobranças.
A existência de pagamentos e das conversas faz parte dos elementos analisados pelos investigadores, mas não representa, por si só, uma condenação criminal.
Caso envolvendo advogado também é apurado
Outra frente de investigação mencionada em reportagens envolve o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. Conforme informações atribuídas à Polícia Federal, o senador teria sido cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária vinculada ao advogado, investigado por suspeita de lavagem de dinheiro.
Para os investigadores, o registro poderia indicar acesso operacional à conta e levantar questionamentos sobre uma eventual relação econômica ou societária. Flávio e Tomaz negam ter negócios em conjunto.
O senador também é citado em outras apurações, segundo reportagens publicadas nesta segunda-feira (26). O alcance de cada investigação e a competência para conduzi-la após o fim do mandato dependerão dos fatos apurados e das decisões judiciais.
Com a derrota presidencial e o encerramento do mandato no Senado, Flávio Bolsonaro se prepara para deixar a vida pública institucional pela primeira vez em mais de duas décadas. As investigações em curso, contudo, poderão prosseguir conforme as regras de competência da Justiça e o andamento de cada procedimento.

