Por Ana Sampaio
O Brasil alcançou 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número mostra a força desse tipo de ocupação no mercado de trabalho e também levanta uma questão: por que cada vez mais brasileiros estão trabalhando por conta própria?
A resposta não está em um único fator. Para parte dos trabalhadores, ter o próprio negócio representa uma oportunidade de aumentar a renda e conquistar mais autonomia. Para outros, o trabalho por conta própria surge como alternativa diante da dificuldade de encontrar um emprego com carteira assinada.
O crescimento também acompanha mudanças no comportamento do consumidor e no mercado. Serviços oferecidos pelas redes sociais, aplicativos e plataformas digitais facilitaram a divulgação de produtos e serviços e permitiram que muitas pessoas começassem uma atividade com investimentos menores.
Empreendedorismo também pode surgir da necessidade
Apesar de o empreendedorismo muitas vezes estar associado à busca por independência financeira, nem todos começam um negócio porque identificaram uma oportunidade.
Uma parcela dos trabalhadores passa a atuar por conta própria depois de perder o emprego ou não encontrar uma vaga com as condições desejadas. Nesse cenário, vender produtos, prestar serviços ou trabalhar como autônomo pode ser uma forma de garantir renda.
Por isso, o aumento do número de trabalhadores por conta própria não significa necessariamente que todos estejam se tornando empresários. Trabalho autônomo, informalidade e empreendedorismo são situações diferentes, embora possam estar relacionadas.
A informalidade ainda é um desafio
O número elevado de trabalhadores por conta própria também chama atenção para a formalização. Cerca de 19 milhões desses profissionais ainda trabalham sem CNPJ, segundo os dados apresentados.
Na prática, a ausência de registro pode limitar o acesso a determinados clientes e contratos. Muitas empresas exigem nota fiscal e documentação empresarial para contratar prestadores de serviços.
Ter um CNPJ também pode facilitar a abertura de uma conta empresarial, o acesso a determinados serviços financeiros e a participação em algumas oportunidades comerciais.
Por outro lado, a formalização também traz responsabilidades, como pagamento de tributos, organização financeira e cumprimento de obrigações legais. Por isso, abrir uma empresa não significa apenas ter um número de registro, mas assumir uma estrutura diferente de trabalho.
Mercado de trabalho ajuda a explicar o cenário
O crescimento do trabalho por conta própria acontece mesmo com indicadores positivos no mercado de trabalho brasileiro.
No trimestre encerrado em fevereiro de 2026, o país tinha 39,2 milhões de empregados do setor privado com carteira assinada, enquanto a taxa de informalidade estava em 37,5%.
O rendimento médio real dos trabalhadores também chegou a R$ 3.679, segundo o IBGE.
Os números mostram que o mercado brasileiro reúne diferentes formas de trabalho. Enquanto milhões de pessoas estão empregadas formalmente, outras encontram no trabalho autônomo uma alternativa para gerar renda.
CNPJ pode ampliar oportunidades
Para quem já possui uma atividade e pretende crescer, a formalização pode abrir portas para novos clientes e contratos.
Um profissional que trabalha como prestador de serviços, por exemplo, pode encontrar empresas interessadas em contratá-lo, mas que exigem emissão de nota fiscal. Nesses casos, ter um CNPJ pode ser uma condição para fechar o negócio.
O desafio é fazer com que o crescimento do trabalho por conta própria venha acompanhado de mais formalização, acesso a crédito, capacitação e condições para que pequenos negócios consigam se manter.
O recorde de 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria, portanto, não representa apenas uma estatística sobre o mercado de trabalho. O dado também revela como os brasileiros estão encontrando diferentes caminhos para gerar renda em um cenário de transformação nas relações de trabalho.


