Por Ana Sampaio
A defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF), na quinta-feira (29), um laudo técnico que aponta registros de alterações em arquivos de seu celular após a apreensão do aparelho pela Polícia Federal (PF), em novembro de 2025. Com base no documento, os advogados questionam a integridade das provas utilizadas na investigação e pedem a soltura do empresário.
Segundo a perícia particular, 657 arquivos foram modificados e outros 436 foram criados em 18 de novembro de 2025, um dia após a apreensão do telefone. Ao ampliar o período analisado, o levantamento identificou registros de modificação em 999 arquivos, incluindo ocorrências em maio de 2026.
O aparelho é considerado uma das principais fontes de provas da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de irregularidades financeiras envolvendo o Banco Master e operações com o Banco de Brasília (BRB).
Defesa questiona cadeia de custódia
O laudo foi elaborado por um perito contratado pelos advogados de Vorcaro. A análise aponta registros de atividade no aparelho enquanto ele estava sob custódia do Estado, incluindo conexões USB, ativações da câmera frontal e eventos de tela.
A defesa sustenta que faltam informações para reconstruir completamente o histórico de manuseio do celular e verificar a integridade dos dados extraídos pela Polícia Federal.
Os advogados também solicitaram ao STF acesso aos arquivos originais da extração, aos registros técnicos da coleta e à documentação completa da cadeia de custódia. Esse procedimento reúne os registros sobre a preservação, o armazenamento e o manuseio de provas desde a apreensão até a análise pericial.
Laudo não comprova adulteração
Apesar dos registros identificados, a perícia particular não aponta quem realizou as alterações nem conclui que houve manipulação intencional dos arquivos.
O próprio documento reconhece limitações para determinar se as atividades registradas foram provocadas por intervenção humana ou por funções automáticas do sistema do aparelho. Uma conexão USB, por exemplo, não comprova, isoladamente, que houve transferência ou modificação de dados por uma pessoa.
Por isso, a apresentação do laudo não significa que a Justiça tenha reconhecido adulteração das provas ou determinado sua anulação.
Vorcaro também foi indiciado pela PF
A apresentação do documento ao STF ocorreu um dia depois de a Polícia Federal concluir uma etapa da investigação e indiciar Daniel Vorcaro e outras 14 pessoas por suspeitas de crimes relacionados às operações do Banco Master e do BRB.
Entre os crimes apontados pela investigação estão gestão fraudulenta de instituição financeira, organização criminosa e lavagem de dinheiro. O indiciamento representa a conclusão da autoridade policial sobre a existência de indícios de envolvimento dos investigados, mas não equivale a uma condenação.
A defesa de Vorcaro contesta as conclusões da Polícia Federal e afirma que as operações questionadas não provocaram prejuízo ao BRB.
O pedido de soltura e os questionamentos sobre a integridade das provas ainda dependem de análise judicial. Caso sejam identificadas irregularidades capazes de comprometer a confiabilidade dos dados, a Justiça poderá avaliar as consequências para o uso desse material na investigação.

