Por Ana Sampaio
A inteligência artificial está ampliando sua participação no desenvolvimento de medicamentos. A tecnologia, antes associada principalmente à análise de dados e à automação de tarefas, já é utilizada por empresas farmacêuticas e de biotecnologia para projetar moléculas, aprimorar anticorpos, investigar tratamentos para doenças e organizar etapas da pesquisa clínica.
Um relatório publicado pela Anthropic em 27 de outubro de 2026 detalha experiências com o Claude, modelo de inteligência artificial desenvolvido pela empresa, em projetos com seis organizações: BigHat Biosciences, Bristol Myers Squibb, Divergence Labs, Enveda, Generate Biomedicines e The Column Group. A companhia também iniciou pesquisas próprias para desenvolver possíveis tratamentos, incluindo projetos voltados a doenças musculares raras.
A proposta é utilizar a IA em diferentes fases da criação de um medicamento, desde a identificação de alvos biológicos e o desenho de moléculas até a análise de resultados experimentais, a preparação de documentos regulatórios e o planejamento de ensaios clínicos. A tecnologia funciona como ferramenta de apoio aos pesquisadores, que continuam responsáveis por avaliar e validar os resultados.
IA auxilia pesquisa de tratamento contra alergias
Um dos projetos apresentados envolve a Divergence Labs, que investiga uma possível abordagem para o tratamento de alergias alimentares. A pesquisa busca desenvolver anticorpos capazes de atuar sobre a imunoglobulina E (IgE), molécula envolvida nas reações alérgicas.
Com o auxílio do Claude, a equipe produziu aproximadamente 35 mil modelos de anticorpos em cerca de um mês. Os pesquisadores avaliaram as estruturas geradas e identificaram candidatos com resultados promissores em testes iniciais de laboratório.
O objetivo é encontrar moléculas que possam contribuir para o desenvolvimento de um futuro tratamento. Entretanto, os resultados ainda são preliminares e não comprovam que os anticorpos sejam seguros ou eficazes em seres humanos.
Tecnologia também é aplicada em pesquisas contra o câncer
A Generate Biomedicines utiliza inteligência artificial para investigar maneiras de aprimorar a terapia com células CAR-T, tratamento que modifica células do sistema imunológico para reconhecer e combater células cancerígenas. A abordagem já é utilizada em determinados tipos de câncer, especialmente doenças que afetam o sangue, e pesquisadores buscam ampliar suas possibilidades de aplicação em tumores sólidos.
Segundo o relatório da Anthropic, seis cientistas utilizaram o Claude Code para desenvolver propostas de alteração em uma parte das instruções genéticas envolvidas na terapia. Uma das versões apresentou uma sequência cerca de 70% menor que a original.
Nos experimentos laboratoriais relatados, a versão modificada permitiu a produção de aproximadamente dez vezes mais receptores pelas células imunológicas e apresentou resultados favoráveis em testes relacionados à atividade antitumoral.
Os dados indicam uma possibilidade de aprimoramento da tecnologia, mas não significam que um novo tratamento contra tumores sólidos esteja pronto para uso clínico. São necessários estudos adicionais para avaliar os resultados e os riscos envolvidos.
IA ajuda a aprimorar anticorpos e analisar documentos
Na BigHat Biosciences, a inteligência artificial foi empregada no desenvolvimento de variantes de anticorpos com características que podem favorecer seu uso como medicamentos. Em aproximadamente dez semanas, a equipe produziu e avaliou cerca de 1.010 variantes de duas moléculas.
De acordo com a Anthropic, algumas das versões apresentaram melhorias em propriedades como capacidade de ligação ao alvo, estabilidade e resistência à formação de aglomerados. Essas características são importantes para avaliar o potencial de uma molécula e sua viabilidade em etapas posteriores do desenvolvimento farmacêutico.
A tecnologia também está sendo aplicada fora dos experimentos laboratoriais. Na Enveda, o Claude auxiliou na revisão de 1.061 páginas de documentos de fabricação de medicamentos. O sistema identificou 11 problemas previamente encontrados por revisores humanos e apontou outros sete.
O tempo necessário para a revisão caiu de mais de 25 horas para menos de três, segundo os dados divulgados. A experiência mostra como a IA pode contribuir para reduzir o tempo gasto em tarefas técnicas, embora a verificação humana continue necessária para assegurar a qualidade das informações.
Indústria farmacêutica avalia uso em ensaios clínicos
A Bristol Myers Squibb também participa das iniciativas. A colaboração com a Anthropic envolve o uso do Claude para apoiar a análise e o planejamento de estudos clínicos de medicamentos em desenvolvimento.
Os ensaios clínicos são etapas fundamentais para avaliar a segurança e a eficácia de um possível tratamento em seres humanos. A IA pode auxiliar na organização de informações, na elaboração de documentos e na análise de diferentes estratégias, mas não substitui os procedimentos científicos exigidos para comprovar os resultados.
A Anthropic afirma que pretende ampliar as iniciativas na área de ciências da vida. A expectativa é identificar outras etapas do desenvolvimento farmacêutico em que a tecnologia possa ajudar a reduzir gargalos e tornar os processos de pesquisa mais eficientes.
Medicamentos desenvolvidos com IA ainda precisam de testes
Apesar dos avanços, a maior parte dos projetos apresentados pela Anthropic permanece em fase pré-clínica, anterior aos testes em seres humanos. Resultados obtidos em laboratório não garantem que um candidato a medicamento terá o mesmo desempenho no organismo humano.
Antes de chegar à população, um novo tratamento precisa passar por avaliações de segurança, estudos clínicos e análise das autoridades sanitárias. Essas etapas verificam, entre outros aspectos, os possíveis efeitos adversos, a dosagem adequada e a eficácia do medicamento.
A inteligência artificial pode acelerar tarefas e ajudar pesquisadores a explorar possibilidades que seriam mais demoradas pelos métodos tradicionais. Ainda assim, seu uso não elimina a necessidade de experimentos, revisão independente e comprovação científica.
Os resultados divulgados indicam que a IA já está sendo incorporada a diferentes fases da pesquisa farmacêutica. O impacto real dessa tecnologia na criação de novos medicamentos dependerá dos resultados dos estudos em andamento e da capacidade de transformar descobertas iniciais em tratamentos seguros e eficazes.
Fonte: Anthropic — relatório Early progress on accelerating drug development with Claude, publicado em 27 de outubro de 2026.

