Por Ana Sampaio
Ciência brasileira aposta em abordagem inovadora
Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) estão desenvolvendo uma substância experimental contra o Alzheimer a partir da peçonha da vespa social Polybia ocidentalis. O estudo aposta na criação de peptídeos terapêuticos capazes de impedir a formação da proteína beta-amiloide, uma das principais envolvidas no desenvolvimento da doença neurodegenerativa.
O projeto conta com apoio do programa FAP-DF Learning 2023 e reúne especialistas de diferentes áreas do conhecimento, como Física, Farmácia, Nanotecnologia, Bioinformática e Neurofarmacologia, em uma abordagem multidisciplinar.
Peçonha modificada apresentou melhora cognitiva em testes
A pesquisa é coordenada pela professora Luana Cristina Camargo, do Instituto de Psicologia da UnB. Segundo ela, os cientistas trabalham com a octo vespina, um composto extraído da peçonha da vespa, que foi quimicamente modificada para apresentar semelhança estrutural com a beta-amiloide.
Em testes pré-clínicos, a substância demonstrou melhora nos déficits cognitivos em modelos animais, o que reforça o potencial terapêutico do composto.
Via intranasal surge como alternativa segura
Um dos principais desafios do estudo é definir a forma mais segura e eficaz de administração do composto. De acordo com a coordenadora, a aplicação direta no cérebro pode levar à degradação do peptídeo, reduzindo seu efeito.
Diante disso, a equipe investiga a via intranasal como uma alternativa promissora, por permitir que o composto alcance o sistema nervoso central de forma menos invasiva. A bioinformática tem sido fundamental para simular diferentes métodos de aplicação e ampliar as chances de sucesso em futuras terapias humanas.
Desafios financeiros e apoio institucional
Apesar dos resultados animadores, a pesquisa enfrenta desafios financeiros e estruturais, como a necessidade de equipamentos especializados, simulações computacionais avançadas e aquisição de compostos específicos.
Segundo Luana Camargo, o apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF) tem sido decisivo para garantir a continuidade do projeto e viabilizar os avanços alcançados até o momento.
Próxima etapa: testes em humanos
Os próximos passos incluem a transição para testes clínicos em humanos, além do cumprimento de todas as exigências regulatórias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O objetivo é validar a eficácia e a segurança dos peptídeos derivados da peçonha, abrindo caminho para novas estratégias no tratamento do Alzheimer.
Especialista alerta para diagnóstico precoce
Paralelamente aos avanços científicos, especialistas reforçam a importância do diagnóstico precoce da doença. O neurologista Lucas Cruz, do Hospital Anchieta, alerta que sintomas como perda progressiva de memória, desorientação e dificuldade para realizar tarefas simples costumam ser confundidos com o envelhecimento natural.
Segundo ele, além do uso de medicamentos anticolinesterásicos, o tratamento do Alzheimer deve incluir acompanhamento psicológico, fisioterapia e apoio familiar, fundamentais para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
