Por Ana Sampaio
Na silenciosa e rochosa Serra da Carnaíba, entre os municípios baianos de Pindobaçu e Campo Formoso, a terra guarda um tesouro sem igual: seis esmeraldas gigantes, descobertas nas últimas duas décadas, cuja beleza e valor despertaram interesse global. Juntas, elas não apenas impulsionaram o mercado de pedras preciosas no Brasil, como também protagonizaram disputas judiciais, leilões milionários e até pedidos de repatriação internacional.
A mais recente descoberta, uma canga de esmeraldas de 92,5 kg, apelidada de “Pequena Notável”, será leiloada no próximo dia 8 de agosto com lance inicial de R$ 100 milhões. A homenagem à cantora Carmen Miranda, conhecida pelo mesmo apelido, se justifica pelo impacto da peça: uma formação rochosa com cristais hexagonais bem preservados, medindo 68 cm x 43 cm x 40 cm. A pedra está em estado bruto, como foi retirada da mina.
A primeira: a joia de US$ 1 bilhão que quase se perdeu no Katrina

Encontrada em 2001, a primeira esmeralda da série histórica pesa impressionantes 380 kg e foi avaliada em cerca de US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 6 bilhões). Após ser extraída da Bahia, a pedra percorreu um caminho tortuoso: foi enviada para São Paulo, depois à Califórnia e, por fim, para Nova Orleans. Lá, desapareceu após o furacão Katrina, em 2005.
Resgatada dias depois em meio aos escombros da tragédia, a pedra acabou nas mãos de um empresário norte-americano, e seu paradeiro gerou uma batalha legal que durou anos. Só em janeiro de 2024, os Estados Unidos formalizaram a repatriação da esmeralda ao Brasil, que deve ficar exposta no Museu Nacional do Rio de Janeiro.
A segunda e a terceira: segredos e investimentos

A segunda pedra, descoberta em 2017 pela Cooperativa Mineral da Bahia, pesa 360 kg e foi avaliada em R$ 300 milhões. Encontrada a 200 metros de profundidade, ela foi vendida a um minerador da região que optou por manter sigilo sobre o valor pago e sua identidade, mas providenciou toda a documentação para regularizar a posse.

A terceira, também localizada em 2017, tem 137 kg e 60 cm de altura. Avaliada em R$ 500 milhões, ela foi adquirida por um empresário de Petrolina (PE) e um investidor de Curaçá (BA). Segundo os compradores, trata-se de uma peça “única no mundo” e com destino certo: o mercado internacional.
A quarta: esmeralda milionária de valor geológico

Em 2021, uma esmeralda de 404,8 kg foi encontrada na mesma região. Apesar de não ter seu valor divulgado oficialmente, especialistas estimaram o preço em US$ 990 milhões. A pedra foi descrita como uma “obra de arte da natureza”, com alto interesse para museus e centros de pesquisa.
A quinta: leilão da Receita Federal

Em 2023, uma pedra de matriz preta com cristais verdes de esmeralda, com 137 kg, foi leiloada pela Receita Federal por R$ 175 milhões. O lance mínimo havia sido de R$ 115 milhões. A pedra, que tem 60 cm de altura, foi encontrada na Mina Carnaíba e descrita em laudo técnico como uma peça de valor inestimável para museus, colecionadores e universidades.
A Serra da Carnaíba: berço de um império mineral
O surgimento consecutivo dessas joias naturais consolidou a Serra da Carnaíba como uma das regiões mais valiosas do mundo em gemas. Mas o brilho das esmeraldas também levanta discussões: a fiscalização sobre o garimpo, o tráfico internacional de pedras preciosas e a necessidade de políticas públicas para garantir que esse tesouro natural beneficie também a população local.

