Por Ana Sampaio
O endividamento das famílias brasileiras alcançou 50,1% da renda anual em agosto de 2026, o maior percentual desde o início da série histórica do Banco Central, em 2011. Os dados foram divulgados na quinta-feira (29) e mostram também que o comprometimento da renda mensal com o pagamento de dívidas chegou a 29%, outro recorde.
O indicador de endividamento compara o valor total das dívidas bancárias das famílias com a renda acumulada nos últimos 12 meses. Já o comprometimento da renda mede quanto do orçamento mensal é destinado ao pagamento de juros e amortizações. Na prática, a cada R$ 100 recebidos, aproximadamente R$ 29 são utilizados para quitar compromissos financeiros com instituições do sistema bancário.
O avanço desses indicadores ocorre em um cenário de crédito caro e maior utilização de modalidades de financiamento com juros elevados, como cartão de crédito e empréstimos pessoais. Em agosto, o endividamento avançou 0,2 ponto percentual em relação a julho e 1,2 ponto na comparação com o mesmo mês de 2025. O comprometimento da renda passou de 28,8% para 29%.
Juros e renegociação de dívidas
A taxa básica de juros da economia, a Selic, estava em 13,75% ao ano em outubro, após redução de 0,25 ponto percentual decidida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em setembro. A taxa influencia o custo do crédito no país, embora os juros cobrados dos consumidores também dependam da modalidade de empréstimo, do risco de inadimplência e das condições oferecidas por cada instituição financeira.
O Banco Central utiliza a Selic como principal instrumento para controlar a inflação. Quando os juros estão elevados, o crédito tende a ficar mais caro, o que pode reduzir o consumo e a pressão sobre os preços. Por outro lado, essa política também aumenta o custo de empréstimos e financiamentos para famílias e empresas.
O governo federal lançou duas etapas anteriores do programa Desenrola Brasil e, em setembro de 2026, instituiu a terceira fase, voltada à renegociação de débitos. A nova etapa tem estimativa de alcançar até 15 milhões de pessoas e prevê a possibilidade de renegociar até R$ 150 bilhões em dívidas elegíveis.
Apesar de a medida provisória já estar em vigor, o cronograma prevê a seleção das propostas de credores até janeiro de 2027. A assinatura dos contratos e o início da aplicação dos descontos aos devedores estão programados para fevereiro do próximo ano. A medida ainda precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional para se tornar lei em definitivo.
Os dados mostram que o endividamento continua sendo um desafio para o orçamento das famílias brasileiras, mesmo com iniciativas de renegociação e mudanças na taxa básica de juros.

