Ataques a supermercados na Europa e alertas de preparação para emergências alimentam boatos sobre possível crise mundial

Incidentes cibernéticos que atingiram sistemas de refrigeração de estabelecimentos em países europeus são reais. Recomendações para manter alimentos e água em casa também existem, mas não representam um alerta de guerra ou de apagão mundial iminente.

Por Ana Sampaio

Publicações que circulam nas redes sociais têm associado ataques cibernéticos contra supermercados europeus, orientações de governos para armazenamento de alimentos e até supostas previsões de episódios de Os Simpsons a uma possível crise mundial. Embora parte das informações tenha origem em acontecimentos reais, a combinação de fatos com interpretações exageradas tem contribuído para espalhar medo e desinformação.

Um dos episódios que deu força às publicações ocorreu na segunda-feira (2), quando supermercados de pelo menos sete países europeus relataram problemas em seus sistemas de refrigeração. Em algumas unidades, temperaturas de freezers e câmaras frias chegaram a níveis próximos de 50°C, comprometendo alimentos que precisaram ser retirados das prateleiras.

Segundo informações divulgadas pela BBC e pela agência Reuters, os incidentes atingiram estabelecimentos na Bélgica, Estônia, Irlanda, Finlândia, Luxemburgo, Países Baixos e Suécia. Empresas do setor relataram interferências nos sistemas conectados responsáveis pelo controle da temperatura, e fabricantes apontaram a possibilidade de ataques cibernéticos.

Na Bélgica e em Luxemburgo, dezenas de lojas da rede Delhaize foram afetadas. Na Suécia, unidades das redes ICA e Coop também registraram problemas. Na Irlanda, a rede SuperValu precisou retirar produtos refrigerados e congelados de estabelecimentos atingidos.

Até o momento, não há confirmação pública sobre a identidade dos responsáveis pelos ataques nem evidências de que os episódios façam parte de uma operação coordenada para provocar uma crise de abastecimento em escala mundial.

Ataque semelhante já havia atingido supermercados na França

O caso registrado em novembro não foi o primeiro desse tipo na Europa. Em outubro, supermercados franceses enfrentaram um ataque de grandes proporções contra equipamentos de refrigeração.

Segundo informações publicadas pelo jornal Le Monde e pela Reuters, centenas de estabelecimentos tiveram seus sistemas de controle de temperatura comprometidos durante a madrugada entre os dias 11 e 12 de outubro. Em algumas unidades, os equipamentos chegaram a registrar 50°C, provocando perdas de alimentos e até pequenos incêndios.

As investigações apontaram vulnerabilidades em sistemas de refrigeração conectados à internet. A ocorrência levou autoridades francesas a abrir uma investigação sobre o ataque, enquanto empresas precisaram adotar medidas para proteger os equipamentos e evitar novos prejuízos.

Os episódios mostram que ataques digitais podem ultrapassar o ambiente virtual e provocar consequências concretas em serviços e estruturas essenciais, incluindo o armazenamento e a conservação de alimentos.

Reino Unido recomenda que famílias mantenham alimentos e água para três dias

Outro assunto que ganhou repercussão nas redes sociais foi a orientação do governo britânico para que a população mantenha em casa uma reserva de itens básicos suficiente para pelo menos três dias.

A recomendação faz parte da campanha Be Ready, apresentada pelo governo do Reino Unido em 22 de outubro de 2026. A iniciativa orienta os moradores a se prepararem para possíveis interrupções temporárias de serviços essenciais, como energia elétrica, abastecimento de água, telefonia e internet.

A lista inclui água potável, alimentos não perecíveis, lanternas, pilhas, rádio portátil, carregadores de bateria, medicamentos de uso regular e itens de primeiros socorros. A orientação também considera as necessidades de crianças, idosos e animais de estimação.

O governo britânico esclareceu que a campanha busca melhorar a preparação das famílias diante de situações emergenciais, como eventos climáticos extremos e falhas em serviços públicos. A medida não foi apresentada como resposta a uma ameaça específica ou como sinal de que um conflito internacional esteja prestes a acontecer.

A orientação também não surgiu isoladamente. A preparação para períodos de até 72 horas já faz parte de recomendações adotadas por outros países europeus e de iniciativas de fortalecimento da capacidade de resposta a emergências.

Plano do Pentágono para bases militares não significa ordem para civis estocarem alimentos

Nos Estados Unidos, outra informação contribuiu para aumentar a repercussão do assunto. Um plano do Departamento de Defesa norte-americano prevê que grandes instalações militares desenvolvam capacidade para manter operações essenciais por até 90 dias sem depender de serviços externos.

A iniciativa, identificada como FORTRESS, envolve medidas para garantir autonomia de energia, água, combustível, comunicações e outros recursos estratégicos em situações de emergência ou conflito.

O projeto foi divulgado pela revista Fortune em 26 de outubro. A reportagem destaca que a proposta está relacionada à segurança e à autonomia das instalações militares norte-americanas.

Entretanto, existe uma diferença importante: o planejamento de autonomia para bases militares não representa uma determinação para que os cidadãos dos Estados Unidos armazenem alimentos para 90 dias. Também não significa que o governo tenha anunciado uma guerra iminente.

 

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