Estudo da UFPel revela mais de 1 milhão de partos de jovens entre 15 e 19 anos em apenas dois anos; Norte do país lidera ranking e escancara desigualdades
Um estudo inédito da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) revelou que em 22% dos municípios brasileiros, a taxa de gravidez na adolescência é comparável à de países de baixa renda, como os mais pobres da África subsaariana. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (21) e apontam uma crise silenciosa de saúde pública.
De acordo com o levantamento, adolescentes brasileiras engravidam quatro vezes mais do que meninas de países desenvolvidos. A pesquisa — financiada pela organização Umane — aponta que, entre 2020 e 2022, o Brasil registrou mais de 1 milhão de partos entre jovens de 15 a 19 anos, além de 49 mil nascimentos de mães entre 10 e 14 anos.
Gravidez infantil: todos os casos são estupro de vulnerável
Segundo a legislação brasileira, toda gravidez abaixo dos 14 anos é legalmente caracterizada como resultado de estupro de vulnerável, o que agrava ainda mais o quadro. O estudo revela que o Brasil não apenas convive com essa realidade, mas a normaliza em grande parte do território nacional.
Desigualdade escancarada: Norte dobra índice do Sul
A análise abrangeu mais de 5.500 municípios brasileiros e mostrou profundas disparidades regionais. O Norte do Brasil apresenta a maior taxa de fecundidade adolescente, com 77,1 nascimentos por mil meninas de 15 a 19 anos — mais do que o dobro do índice registrado no Sul (35 por mil).
Além disso, o levantamento mostra que quase 70% dos municípios têm taxas acima do esperado para um país de renda média-alta, como o Brasil. “O padrão observado se assemelha ao de países de renda média-baixa ou até mesmo de baixa renda”, explica o epidemiologista Aluísio Barros, coordenador da pesquisa.
Queda na fecundidade geral, mas jovens seguem vulneráveis
Enquanto o número médio de filhos por mulher no Brasil caiu para 1,6 — índice típico de países ricos — as adolescentes seguem engravidando em ritmo elevado. Isso mostra que o avanço demográfico não chegou igualmente a todas as faixas etárias e regiões.
“A gravidez na adolescência não é uma escolha, mas o desfecho de um contexto de privação e falta de oportunidades”, diz Barros. “Precisamos de políticas públicas que ataquem as causas básicas: pobreza, evasão escolar, falta de acesso a serviços e ausência de perspectivas.”
Por Ana Sampaio
