Ministério acusa falha inédita no controle de matéria-prima; até 245 equinos já morreram — empresa retoma parcial da produção sob disputa judicial
Em um dos mais graves episódios de segurança alimentar animal já registrados no Brasil, ao menos 245 cavalos morreram após consumir rações fabricadas pela Nutratta Nutrição Animal Ltda, distribuídos por Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Alagoas. O caso, classificado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) como inédito, expôs uma falha grave no controle de matéria-prima utilizada na produção.
Substância letal detectada
As análises dos Laboratórios Federais de Defesa Agropecuária (LFDA) identificaram a presença de alcaloides pirrolizidínicos — incluindo a monocrotalina, uma toxina natural produzida por plantas do gênero Crotalaria. Mesmo em concentrações baixas, essa substância é altamente tóxica, provocando lesões hepáticas e neurológicas irreversíveis em animais.
Suspensão cautelar ampliada
Diante da constatação, o Mapa iniciou processo administrativo e lavrou auto de infração, determinando a suspensão cautelar da fabricação e comercialização dos produtos da Nutratta, inicialmente voltada a equídeos e posteriormente estendida a todas as espécies animais, como medida preventiva diante do risco comprovado.
Disputa judicial conturbada
Apesar da interdição, a Nutratta conseguiu autorização na Justiça para retomar a produção de rações não destinadas a equinos. O Ministério recorreu da decisão, argumentando que novas evidências técnicas comprovam o risco sanitário persistente, defendendo a manutenção da interdição completa até que todos os lotes sejam rastreados e recolhidos.
Prejuízos incalculáveis e falha de comunicação
Criadores relatam perdas bilionárias no campo financeiro e biológico. O caso mais emblemático aconteceu no Haras Nova Alcateia, onde morreram 69 cavalos, incluindo o garanhão Quantum de Alcatéia, avaliado em cerca de R$ 12 milhões, o que eleva os prejuízos estimados a mais de R$ 30 milhões.
Apesar de um posicionamento formal da Nutratta, afirmando colaboração com autoridades e revisão interna de processos, os criadores criticam a ausência de recall e a falta de comunicação clara com os clientes afetados.
Riscos sistêmicos alertam para reforço regulatório
O episódio acende um sinal de alerta para os riscos associados à cadeia de produção de alimentos para animais e reforça a urgência de fiscalização rigorosa, rastreabilidade eficiente e transparência entre produtoras e consumidores.
O Mapa já orientou que qualquer denúncia ou informação adicional seja encaminhada exclusivamente à Ouvidoria oficial do ministério, reforçando o compromisso com a segurança agropecuária
Por Ana Sampaio
