Por Ana Sampaio
Produtores e comerciantes de cacau do sul da Bahia realizaram, neste domingo (25), uma série de protestos em Itamarati, distrito de Ibirapitanga, e em Ilhéus, como forma de reação à forte desvalorização do preço da amêndoa e ao avanço das importações de cacau africano. As manifestações escancararam a crise enfrentada pela cadeia produtiva do cacau, uma das mais tradicionais da região.
Em Itamarati, considerado o principal ponto de mobilização, os manifestantes interditaram a BR-101, no km 406, chamando a atenção para o impacto direto da queda de preços na renda dos produtores. Já em Ilhéus, o ato ocorreu nas proximidades do Porto, local estratégico por onde entram grandes volumes de cacau importado, alvo central das críticas do movimento.
Segundo os produtores, os deságios aplicados pelas indústrias moageiras, com base nas cotações da Bolsa de Nova York, atingiram níveis muito abaixo dos padrões históricos das últimas duas décadas, tornando a atividade economicamente inviável. No mercado internacional, o cacau chegou a ser negociado a quase US$ 12.700 por tonelada, mas sofreu forte recuo e atualmente gira em torno de US$ 4.000.
No Brasil, o impacto foi ainda mais severo. Em um intervalo de 12 meses, o preço pago ao produtor teria despencado de cerca de R$ 1.000 para aproximadamente R$ 250 por arroba, patamar considerado insuficiente para cobrir custos de produção, manter empregos no campo e garantir novos investimentos nas lavouras.
Outro ponto de insatisfação é a falta de isonomia regulatória. Entidades do setor afirmam que o cacau nacional é submetido a critérios rigorosos de classificação e logística, enquanto as amêndoas importadas não enfrentariam as mesmas exigências. Além disso, os produtores denunciam a formação de estoques acima da real necessidade do mercado interno, o que, somado às importações, amplia a oferta e pressiona ainda mais os preços.
Em contraponto, as indústrias alegam retração na demanda por derivados de cacau, redução das moagens e necessidade de importações para complementar a oferta e garantir o abastecimento das fábricas em um mercado considerado altamente volátil.
Os protestos em Itamarati e Ilhéus evidenciam o aumento das tensões entre produtores e indústrias, e uma nova rodada de manifestações já está prevista para a próxima quarta-feira (28). A categoria cobra diálogo e medidas urgentes para evitar o colapso da produção cacaueira no sul da Bahia.
